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QUEM
É SILVIO COSTTA
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| Conheça
mais sobre o escritor, ator e
músico. |
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A
cesta de natal |
O
dia ainda estava escuro enquanto Dorcas
despertada pela obrigação,
mas embriagada de sono e cansaço
, resfolegava o ar da manhã em
rápidas passadas rumo à
estação de trem . No caminho
, algumas pessoas transitavam sobre as
estreitas calçadas provocando um
sonoro lembrar de marcha descompassada.
A tiracolo ,uma velha bolsa ficava envolvida
em seus braços para manter firmeza
sem atrapalhar a objetiva caminhada. A
chegada na estação se tornava
sempre uma agonia: o medo do atraso do
trem, os gatunos de plantão ou
um homem qualquer que se aconchegasse
de modo mais abusado, quando ela já
estivesse dentro do vagão. A ansiedade
tomava conta de todos quando o trem encostava-se
à plataforma. No meio da aglomeração,
suas mãos alcançaram o ferro
de apoio completamente gelado . Outras
mãos se chegaram provocando um
emaranhado de braços. Próxima
estação. A estranheza do
olhar de um na cara do outro já
não incomodava tanto.
O trem seguiu o trajeto. Cabeças
paradas, gente dando risadas, outros
fumando . Aos poucos o aperto se misturava
com acomodação . Entre
um braço e outro, o alcance de
sua visão conseguia distinguir
um pouco as palavras em destaque na
primeira página de um jornal
que um homem de chapéu lia com
atenção. Ao seu lado uma
mulher de olhos fundos tentava cochilar
. Em suas costas , um frio gelado insistia
em penetrar pela fresta da porta. No
pensamento de Dorcas, algumas lembranças
tentavam se encaixar. A noite passada,
a discussão com o marido que
gostava de beber , o filho que não
comia direito e estava muito magrinho.
Ora desse menino corar. Ela pensava
. Será que está com bicha
? Licor de cacau dá um jeito.
Os outros dois filhos estavam bem. Com
saúde tudo se arranjava. Entre
o chacoalhar do barulho do trem e o
assobiar do atrito das rodas com os
trilhos, seus pensamentos dispersos
só foram resgatados por uma importante
e única lembrança : aquele
era o dia da véspera de natal.
Após uma jornada de duas horas
de viagem e três conduções
, a subida na rua de paralelepípedos
se tornava ainda mais difícil.
Parecia que a pequena rua se transformava
em uma enorme montanha, onde Dorcas
caçaria um leão e o mataria
até as sete horas da noite. Na
sua labuta, limpava , lavava e passava.
A Casa dava trabalho : quartos grandes
, sala imensa , uma grande escada com
o corrimão de latão. A
patroa sempre exigia o brilho, tinha
muito orgulho daquela escada. Do lado
de fora, um quintal pra mais de vinte
metros. O varal também não
era nada pequeno. Ali , ela estendia
toda a roupa lavada que ficou esperando
desde a semana anterior. Uma pilha de
roupas sujas. Sete pessoas vivendo e
sujando. Ela não se importava
, a partir do momento que adentrava
pela casa, praticamente virava outra
pessoa, era um trem por dentro do outro,
como ela dizia, de tão ágil
e forte. Suas pequenas mãos viravam
grandes máquinas e o minúsculo
corpo se movia para lá e para
cá o dia inteiro, no vestido
puído misturavam-se manchas de
suor e água de sabão.
Hora do almoço. Senta aqui com
a gente Dorcas ! A patroa falava.
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Meio
sem jeito, ela respondia que não,
e com um sotaque todo seu emendava : Eu
gosto de cumê na suleira. Quanto
mais cedo terminá o selviço
, mais cedo vô imbora!
E seguiu o dia, chegou
a tarde e passou o tempo. Após
a última peça de roupa passada,
ela guardou o ferro e foi se arrumar .
Já de volta, deu alguns passos
e já estava diante da grande porta
de peroba de entrada e saída do
casarão. Ao lado, um vaso com uma
palmeira. Deixa que eu bote água
dona Nenê. Disse Dorcas com delicadeza,
largando a bolsa no chão . Quando
voltou com um caneco na mão ,teve
um espanto. Antes do primeiro degrau ,
sua patroa havia colocado uma grande caixa
de papelão. Sua cesta de natal.
Disse dona Nenê. A caixa era uma
embalagem simples , porém, estava
bem amarrada . A patroa agradeceu a Dorcas
pelo bem trabalho que ela desempenhava
na casa e desejou-lhe um feliz natal,
sem se esquecer de dar recomendações
à toda sua família. Abraçaram-se,
se despediram e os pequenos braços
de Dorcas envolveram a grande caixa de
papelão, deixando apenas a visível
um pedaço de seu rosto , onde os
olhos agradecidos e marejados já
vislumbravam uma pequena luz no final
da rua que aparecia no meio da escuridão
da porta aberta.
Ao chegar no ponto de
ônibus , o peso da caixa já
falava por si só. Cansada, colocou
a caixa no chão. Ao seu lado algumas
pessoas também esperavam . Próximo
ao ponto , um comerciante lavava a frente
do bar. A água escorria rua abaixo,
formando curvas pela calçada. Dorcas
estava atenta para não perder o
ônibus. Encostado na parede, um
mendigo gemia lamúrias , apesar
de aparentemente estar embriagado. Quando
seu ônibus chegou, ela mal teve
tempo para apanhar a caixa , pessoas correram
se atropelando , provocando um tumulto
nos degraus. Quando finalmente conseguiu
entrar e colocar a caixa no chão,
percebeu que o fundo da caixa estava todo
molhado, e mais, alguma coisa tinha ficado
para trás. Ao erguer a cabeça,
notou do lado de fora o mendigo se abaixando
e abraçando feliz um pote de vidro.
Ao arranque do ônibus , sua única
reação foi olhar para a
caixa e lamentar em silêncio. Na
Segunda condução de volta
para casa, sua caixa estava de ponta cabeça,
já que o papelão do fundo
não oferecia resistência.
Mesmo assim, o peso ainda era grande,
seus braços doíam. Dorcas
tentou resistir o máximo que pode.
Dentro do trem não havia lugar
para sentar, suas mãos formigavam
, seu cansaço era maior que tudo.
Sentindo não poder levar a caixa
tão cheia e pesada até em
casa, sua solução foi aliviar
o peso e o sofrimento com a doação.
Um pacote de macarrão para uma
senhora mal vestida. Uma lata de ervilhas
para a menininha que vendia doces. Uma
caixa de bombons foi aberta e dividida
para dezoito pessoas. A notícia
se espalhou no vagão, olhos pedintes
apareceram de toda parte. Um isso para
aquele, um aquilo para o outro. Restaram
dentro da caixa , apenas uma garrafa de
vinho e um saco de balas de festa. Quando
ela chegou em casa , passava das dez da
noite e todos já estavam dormindo.
Seu marido roncava na cama de casal e
suas três crianças estavam
esparramadas num velho colchão
no chão. Dorcas tomou banho , se
ajoelhou aos pés da cama, pediu
para Deus proteger a todos, e cansada,
deitou e dormiu. A luz da lua atravessava
a janela da cozinha e fazia a garrafa
de vinho em cima da mesa refletir sobre
o saco de balas brancas que certamente
fariam a felicidade das crianças
no natal. Em algum canto da cidade , um
mendigo comeu azeitonas, uma velha cozinhou
macarrão e uma menininha , enjoada
de comer resto de doces, comeu pela primeira
em sua vida ervilhas em conserva.
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