Entrevista
com o Jornal Cataguases
Projeto Escrevendo com o Escritor
Data: domingo, 3 de dezembro de 2006
Mídia: Jornal Cataguases
Local de Publicação: Cataguases
- MG
O paulistano Sílvio
Costta, 42 anos, não é apenas
mais um escritor de literatura infantil.
Seu trabalho pode ser usado para definir
o que é ser artista multimídia.
Músico, compositor, escritor, produtor
e ator de teatro, professor de musica e
contador de estórias são apenas
alguns dos papeis que ela desempenha em
sua carreira, iniciada ainda na adolescência.
Jornalista e Professor de Filosofia, Sílvio
lançou no ano passado uma serie de
quatro livros infantis dentro de um projeto
de iniciação musical que une
a literatura à musica e que foi adotado
este ano pelas escolas municipais da cidade
de São Paulo com grande êxito.
Além da serie denominada “O
homenzinho da caverna e os sons que ele
descobriu”, publicado pela editora
Ibep-Nacional, Sílvio Costta lançou
também o livro “As palavras
que apareceram no dia em que o gato sumiu”,
pela editora Ave-Maria, e prepara para o
próximo ano a publicação
de outro –“Quem é a Glória?”-,
pela editora Dubolsinho, sobre inclusão
social.
Em visita a Cataguases para um bate-papo
com as crianças que estudam na Biblioteca
Digital Josué Inácio Peixoto,
do Instituto Francisca de Souza Peixoto,
e que com ele conversaram pela Internet
no mês de outubro, através
do projeto Escrevendo com o Escritor, Silvio
Costta concedeu à jornalista Cristina
Quirino, do “Cataguases”, esta
entrevista onde conta sua experiência
com a arte em geral, a literatura infantil
em particular e de seus projetos sobre música
e cultura.
JORNAL CATAGUASES -Como
a Arte em especial a literatura infantil,
entrou em sua vida?
Silvio Costta -Eu era adolescente quando
encontrei um violão e comecei a
tocar sozinho. Mas sempre gostei muito
de literatura. Comecei a ler aos cinco
anos, sem professora, porque não
fiz pré-escola. Mas a literatura
demorou muito para acontecer na minha
vida. As estórias e a contação
de estórias propriamente ditas
começaram atraves da musica. Fiz
minha primeira canção ainda
adolescente. Era de protesto, de festivais.
Inclusive ganhei alguns desses no tempo
da faculdade. Paralelamente comecei a
fazer músicas infantis. Minha primeira
composição dediquei a uma
sobrinha, que hoje tem vinte e três
anos. Foi, na verdade, um experimento
que me fez gostar muito de trabalhar nessa
área infantil, quando a gente faz
uma musica, cria uma estória, sintetiza
aquele tema nas notas musicais. As pessoas
acham que o compositor vai em cima da
idéia pronta e encaixa a melodia...
Entretanto, para que a música fique
pronta, existe todo um tempero e, às
vezes, é muito mais difícil
compor a musica e escrever a letra do
que propriamente redigir um livro, porque
este, caso fique muito grande, você
resume para o tamanho que a editoria quiser.
Já a musica precisa ter a perfeição
nos encaixes, nas palavras. Eu diria que
a musica é o resumo de um livro
bem sucedido. Claro que ela pode surgir
do nada e, em dez ou quinze minutos, estar
pronta. Isso é inspiração.
Normalmente, porém, compor uma
musica é mais complicado, e se
parece com um livro bem sucedido, porque
você precisa reunir uma excelente
idéia e criatividade para que fique
enxuto e bom.
CATAGUASES –Quando
você começou a trabalhar
especificamente com o público infantil?
Sílvio Costta –O jornalismo
abriu muitas portas na vida para mim.
Por isso continuei na musica, gravando
discos, mas também trabalhando
como jornalista, ate que fiquei desempregado
e deixei a profissão. Nessa época
decidi fazer um curso de teatro infantil.
Foi aí que passei a escrever peças
teatrais e a compor musicas para as trilhas
sonoras das peças, sempre para
crianças. Trabalhávamos
com fantoches e comecei a me envolver
com toda a produção também,
desde a concepção do projeto,
e a elaboração do roteiro,
ate cenários, confecção
de bonecos, tudo...E assim fui tomando
conta desta parte. Meu irmão, com
seu talento nato de ator, ficava mais
na atuação. Trabalhamos
juntos por doze, treze anos, e acabei
absorvendo todo o processo, o que determinou
o fim da nossa parceria. Paralelamente,
fui escrevendo peças que não
chegaram a ser montadas, criando personagens,
estórias que ficaram guardadas.
Também passei a preparar projetos
sob encomenda para outros grupos, ate
que em 2001 fui convidado a trabalhar
para a Prefeitura de São Paulo,
a fim de desenvolver uma proposta sobre
inclusão social. Felizmente, ela
deu certo e passei a me interessar muito
pelo tema, tanto que escrevi um livro
que vai ser lançado em janeiro
sobre uma menina feliz, que se dá
bem com todo mundo, apesar de suas limitações,
que são reveladas no meio do enredo,
o que o livro procura mostrar para o leitor
é que o deficiente é a ignorância.
Portanto, é essa a mensagem que
procuro deixar nesse livro.
CATAGUASES –Como
surgiu o primeiro livro da serie homenzinho
da caverna?
Sílvio Costta –Havia escrito
alguns livros, sem, no entanto, ter publicado
nenhum. Em 2001, a convite de uma amiga,
fui dar aula de musica para crianças
em idade pré-escolar. Nesta época
também já lecionava musica
para crianças maiores, o que era
bem mais fácil. Trabalhar com uma
criança de dois anos era complicado...
Pensava numa maneira de fazer com que
ela prestasse atenção naquilo
que eu ensinava. Um dia preparei uma aula
como a que dava para as crianças
maiores, adaptando, porem, o meu método
para os menores. Ensinava musica procurando
envolver as crianças, seja pela
musica, pela letra, e também através
da contação de estórias.
Por exemplo, contava a estória
de uma cadeira e mostrava o som que ela
produz quando a gente bate nela, os diferentes
timbres que se consegue a partir da intensidade
da batida. É uma forma de brincar
e de ensinar. Mas, naquele dia em que
iria dar a primeira aula para as crianças
menores, acordei inspirado e tive a idéia
de escrever uma estória chamada
‘O homenzinho da caverna e o som
que ele descobriu’. Fui para o computador
e comecei a escrever, o que resultou num
livro de oito paginas em que eu procurava
contar uma estória para as crianças
através da historia do próprio
homem, sua interação com
os animais e a descoberta dos sons, dos
fenômenos da natureza, do fogo,
da arte rupestre, que é o começo
da escrita e de toda a Arte. Com o livro
em mãos, alem de utilizá-lo
nas aulas com os pequeninos, decidi enviar
também para as editoras. Algumas
delas se interessaram e uma me pediu que
o dividisse em quatro volumes, um trabalho
que me tomou quarenta dias. Porem, depois
de tudo pronto, a editora desistiu de
lançá-lo, o que foi uma
decepção enorme. Coincidência
ou não, três dias depois
outra editora fez a mesma proposta e demos
inicio ao projeto editorial, que contou
com o trabalho do ilustrador Ricardo Giroto.
Quatro ou cinco meses depois a obra ficou
pronta. Como era meu primeiro livro fiquei
muito ansioso sobre o que iria acontecer
a partir dali... E livro é como
uma criança, precisa de um tempo,
precisa ser ‘depurado’. E
esta coleção esta começando
a ‘acontecer’ agora, porque
recentemente, em São Paulo, a obra
foi adotada pela Prefeitura para ser usada
nas escolas municipais.
CATAGUASES –Os
livros são usados como método
de ensino musical?
Silvio Costta –Na verdade, toda
a serie é multifuncional, e essa
é a característica diferencial
desta estória. Os quatro livros
são independentes e podem ser usados
para ensinar musicas para as crianças
de qualquer idade, ate mesmo bebes, porque
ele trabalha as onomatopéias. E
nada mais importante para o desenvolvimento
sonoro de uma criança do que aprender
a identificar esses ‘barulhos’,
essas onomatopéias. Então,
os livros além de ensinar os sons
para cada seguimento, também têm
um enredo, onde você esta contando
uma estória, esta brincando. Até
as crianças maiores gostam muito.
CATAGUASES –Como
foi desenvolver esse trabalho aqui em
Cataguases, com os alunos da Biblioteca
Digital Josué Inácio Peixoto,
através do projeto “Escrevendo
com o Escritor”?
Sílvio Costta –Foi sensacional!
É Maravilhoso saber que hoje em
dia a informação esta ao
alcance das pessoas, que a tecnologia
pode reunir gente diferentes lugares para
a mesma finalidade. A informação
em si e a troca de informação
hoje chega a qualquer lugar do mundo.
É uma revolução isso
que esta acontecendo. Gostei muito dessa
experiência de me comunicar com
os alunos do Instituto Francisca de Souza
Peixoto, daqui de Cataguases, buscando
sempre responder às suas perguntas
e instigando-as a escrever. Nós
produzimos um dialogo, que eu iniciei,
falando sobre o meu ideal de escola, contando
sobre o meu primeiro dia de aula, qual
a visão que eu tinha naquela época
e estimulando-os a falarem sobre o seu
primeiro dia na escola, o que sentiram
e sobre os seus próprios ideais.
Eles se basearam na minha historia e contaram
a deles. É uma forma também
de incentivar a criança a escrever,
porque o escritor leva sempre algo de
verdade da sua própria vida, das
suas experiências pessoais, para
as estórias que escreve. Na verdade,
o tempo todo estamos contando sobre nossas
historias. Então escrever é
o resultado das historias que acumulamos.
Eu sempre digo que a serie sobre ‘O
homenzinho da caverna’ só
chegou onde chegou porque veio do coração.
CATAGUASES –Em
sua opinião, a Cultura e a Arte
podem mudar positivamente a realidade
de um país?
Sílvio Costta –Quando comecei
na área musical tinha um sonho.
Não vou dizer que a musica foi
uma grande decepção, porque
sempre fiz um trabalho mais alternativo,
e ela me deu muita coisa, criei algumas
trilhas sonoras, inclusive a da serie
sobre o homenzinho. Mas em nível
globalizado, a musica brasileira é
uma decepção. Eu digo sempre
que a musica não é democrática,
ela é imperativa. Então
nos temos que tomar cuidado com o tipo
de musica que ouvimos. Não estou
aqui fazendo um discurso contra qualquer
gênero musical, ate porque muitos
nem podem ser chamados de ‘gênero’,
mas sim de ‘coisa musical’,
ou mesmo de ‘coisa’ somente.
Houve uma degradação muito
grande desta Arte, porque hoje é
surpreendente você chegar em certos
ambientes e ver crianças rebolando
ao som de canções que nem
eram para estar gravadas, musicas chulas,
de baixo nível. Muitas delas estão
inclusive nas escolas. Alias, nós,
educadores, profissionais da comunicação,
temos que tomar muito cuidado com isso.
Mandei para gravadoras diversas composições
minhas, vários cd’s demo,
e nunca obtive resposta. Na área
literária acontece o inverso, ou
seja, apesar de fechada, da mais oportunidade.
Muita gente pode escrever, e conseguir
publicar, tanto é que eu tive esta
chance. Você tem que trabalhar diariamente,
mas ainda assim há espaço.
Já a musica é fechadíssima
porque é controlada pelas rádios,
e as emissoras só tocam o que é
comercial, em outras palavras, se for
pago. E, muitas vezes, nem pagando se
toca, porque outro dia vi uma entrevista
com o Tom Zé onde ele dizia que
nem pagando as rádios tocam as
suas musicas. E a musica entra num ouvido
de qualquer pessoa, basta ligar um botão...
já a literatura, não. Ela
depende de escolha, e nada melhor do que
fazer as nossas próprias escolhas.
Por fim, acredito sim que a cultura e
a arte podem fazer a diferença
nos rumos de um povo.
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