| |
|
QUEM
É SILVIO COSTTA
|
| Conheça
mais sobre o escritor, ator e
músico. |
|
|
|
|
|
|
|
|
Vida
de mudança |
O aluguel já estava vencido
há dois meses, mas nunca faltava
o feijão..
- Pode arrumá as nossas coisa
muié. Já arranjei um caminhão
!
Era assim que ele falava, com todas
as letras . Desde pequenino eu ouvia
isso e me calava. Ela e os outros quatro
filhos também. Entre promessas
de mudanças e mudanças
de vida, íamos de lá pra
cá , trechos curtos ou longas
estradas. Para sair do Jardim Peri,
onde eu nasci, ir até o outro
lado da cidade na Zona Leste , devia
ser muito longe naquela época.
Nem tinha a marginal Tietê. O
caminhão pulava muito , com a
garotada na carroceria, enfiada no meio
das tranqueiras. Dentro da boleia, o
motorista dirigindo, ele renovando os
sonhos na cabeça , ela carregando
o último rebento nos braços.
Eu era apenas um bebê, mas depois
de tantas mudanças, posso imaginar
como teria sido a minha primeira. Suas
frases eram sempre objetivas, tudo se
resolvia, dizia que era só mudar
as crianças de escola. Os amigos
também ; era só arranjar
outros. Bairro dos Pimentas . A vida
ardia. Não tinha luz, não
tinha água. Ela trabalhava o
dia inteiro fora. Os moleques aprontavam.
As maiores me olhavam. Já estavam
virando mocinhas. Dizem elas, que foi
um sacrifício danado ir para
a escola. Estradas de terra, mato fechado,
cobras atravessando pelo caminho. Eu
não duvido. Se a noite eu via
tantas estrelas no céu de uma
cidade sem poluição, como
posso duvidar da natureza atravessando
caminhos ? E foram tantos caminhos.
Diz a minha mãe, que foram mais
de quarenta mudanças. Daria para
montar um roteiro.
|
|
Mais um lugar. Mais uma mudança.
Ele dizia que ia ganhar na loteria esportiva
. Apostava sempre. Detestava futebol,
só colava o radio no ouvido para
marcar os pontos e conferir no volante.
Sorte não vinha. Uma mudança,
mas agora de emprego, promessa de uma
nova vida no interior. E foram tantas.
Nessas , ele ia só. Mocóca,
Rio Pardo, Jundiaí, e por aí...
Aonde tivesse obra, concreto e peão
, lá estava ele. Mais um prédio,
mais sonho. Construiu tanto para os outros
que esqueceu de si mesmo e dos seus. Esses
estavam crescendo. Eu já estava
no ginásio, a mais velha casando.
Os outros três , levando a vida.
A mulher estava ficando mais velha. Ele
também , o incansável sonhador.
De manhã, sempre cortava o silêncio
do sono dos filhos, assobiando, tirando
a barba , se preparando para ir trabalhar.
Uma coisa é inegável , era
um trabalhador. Desde sua chegada , na
antiga rodoviária, perto da Duque
de Caxias, com a mulher do lado, carregando
uma mala velha que mais parecia uma trouxa
, dormindo as primeiras noites no CETREN
do Brás, seus braços sempre
lutaram pelo sustento. Gastou muito, errou
também. Não vale a pena
diagnosticar os reais motivos de uma vida.
Após cinqüenta anos, o tempo
carcomeu os seus sonhos . Ela nunca desistiu.
Viramos adultos, casamos, tivemos filhos,
aprendemos a lição. Cada
um de nós cinco, tem um pedaço
dessa cidade . É preciso ter uma
casa . São Paulo é a nossa
! |
|
|
|